No processo de reflexão sobre a reformulação do currículo para a formação de farmacêuticos, enfatizou-se a necessidade de aprofundamento sobre a construção de um "Projeto Pedagógico" (MENOGOLLA & SANT'ANNA, 1992; DEMO, 1993; MARQUES, 1995) como fundamento da concepção de educação que deverá basear o novo currículo.
A concepção de que a escola, e até mesmo a própria educação, trata-se de uma realidade histórica, isto é, suscetível de sofrer transformações pela ação humana (SAVIANI, 1985), marcou o entendimento de que o ensino farmacêutico precisa ser determinado socialmente. A nossa sociedade baseia-se no modo de produção capitalista e é dividida em classes com posições opostas, fazendo com que o ensino farmacêutico sofra influência do conflito de interesses. Considerando que a classe dominante não tem interesse na transformação histórica do ensino farmacêutico, o processo dereflexão aconteceu no sentido de superar este problema, acreditando que a formação do farmacêutico precisa ter como referencial a Assistência Farmacêutica (SANTOS & ROSALEN, 1994).
Todo o processo culminou na adoção de uma concepção abrangente quanto ao conceito do termo "currículo", em contraposição à concepção reducionista e fragmentada, caracterizada pelo ajuntamento aparentemente lógico de disciplinas e/ou matérias.
O termo "currículo" pode ser usado com vários sentidos e várias definições têm sido apresentadas. Assim, é útil distinguir o uso dessa palavra para denotar o conteúdo de um assunto ou área de estudo particular, de um lado, de seu uso para referir o programa total de uma instituição de ensino, de outro (KELLY, 1986).
Geralmente surgem conflitos à medida em que se procura reconciliar as exigências concorrentes desses dois aspectos do planejamento do currículo, e pode ser que algumas deficiências de tentativas anteriores de planejar currículo possam ser atribuídas ao fato de que tendiam a se processar de um modo fragmentário dentro das matérias, e não de acordo com algum fundamento lógico global, de modo que o currículo pode ser considerado como "o produto amorfo de gerações de remendões" (TABA, 1962). Essas duas dimensões do desenvolvimento do currículo são importantes, mas é a lógica do currículo total que deve ter prioridade, já que, segundo parece, uma vez que ele se estabeleça em base firme, o currículo das matérias individuais se lhe ajustaria automaticamente. Conforme esta concepção, é preciso dar prioridade à consideração do currículo total e pode-se afirmar que a principal tarefa com que atualmente se defrontam os planejadores do currículo é a de elaborar uma base sobre a qual se possa construir algum esquema completo (KELLY, 1986).
A fim de se evitar a organização do currículo em disciplinas e a sua atomização, uma das formas é a de combinar as várias disciplinas em campos maiores ou áreas propriamente ditas de conhecimento. Decorre destas proposições que o currículo não é um agregado de disciplinas, mas uma organização em campos ou áreas de conhecimento dos quais fazem parte os conjuntos de conceitos específicos que constituem no passado as disciplinas departamentalizadas (MARTINS, 1978).
Com base nas concepções teóricas referidas anteriormente, a sistemática adotada obedeceu as seguintes etapas:
2.1. Análise histórica nacional da profissão farmacêutica no contexto sócio-político-econômico geral.
2.2. Verificação da existência ou não de lacunas entre o papel exercido pelo profissional farmacêutico e aquele esperado pela sociedade.
2.3. Análise da adequação do currículo mínimo vigente (04/69).
2.4. Definição da construção de um Projeto Pedagógico como fundamento da concepção de educação que baseia o novo currículo, alicerçado nas seguintes etapas:
2.4.1. Definição do perfil do profissional farmacêutico a ser formado, essencial para nortear as etapas subseqüentes para a elaboração de um novo currículo mínimo.
2.4.2. Fundamentação do Perfil Profissional baseada na discussão sobre Política Nacional de Saúde, Política Nacional de Medicamentos e Política Nacional de Educação.
2.4.3. Divisão didática em componentes curriculares, sendo: componentes terminais, componentes instrumentais e componentes básicos, como estratégia para a articulação das áreas de conhecimento definidos.
2.4.4. Definição das áreas de conhecimento envolvidas na formação profissional baseada numa linha pedagógica.
2.4.5. Fundamentação das áreas de conhecimento como definição dos seus papéis como referencial de conhecimento necessário.
2.4.6. Definição da estrutura curricular do novo currículo.
2.4.7. Fundamentação das sub-áreas de conhecimento enquanto diretrizes essenciais para a elaboração do Projeto Pedagógico de cada IES.
2.4.8. Definição das características e fundamentação do estágio.
2.4.9. Definição do tempo de duração do Curso.
2.4.10. Definição das fundamentações/características das habilitações.