Quatro em cada cinco médicos recebem visita de fabricantes; desses, 48% indicam remédios sugeridos pela indústria. Os dados são de uma pesquisa inédita do Conselho Regional de Medicina de São Paulo, realizada pelo Datafolha ente dezembro de 2009 e janeiro de 2010 e que ouviu 600 médicos de várias especialidades.
Para o Cremesp o estudo mostrou que os médicos têm percepções diferenciadas sobre os valores éticos que permeiam a relação entre os profissionais e as empresas. “Aqueles que avaliam positivamente a relação (62%) alegam que a indústria realiza bom atendimento técnico, traz novos medicamentos e informações científicas atualizadas. Também mencionam a idoneidade das empresas e a atualização científica por meio de congressos, cursos e eventos. Mas para cerca de um terço dos médicos, a relação está muito contaminada e por vezes ultrapassa os limites da ética”, avalia o Conselho. Para acessar a íntegra da pesquisa clique aqui.
Outro indicador que a pesquisa trouxe é que a promoção de medicamentos, produtos e equipamentos pode influenciar, de forma negativa ou desnecessária, as decisões de tratamento, sendo que 33% dos médicos souberam ou presenciaram casos de pressão da indústria sobre médicos ou alguma parceria comercial considerada inadequada.
"Para boa parte [dos médicos], a única forma de atualização é a propaganda de laboratório. E com ela vem os presentes, os brindes. Isso tomou uma dimensão maior, mais promíscua, quando as receitas passaram a ser monitoradas", diz Luiz Alberto Bacheschi, presidente do Cremesp.
A pesquisa revela que 93% dos médicos afirmam ter recebido, nos últimos 12 meses, produtos, benefícios ou pagamento da indústria em valores até R$ 500. Outros 37% declaram que ganharam presentes de maior valor, desde cursos a viagens para congressos internacionais.
Existem várias normas -inclusive um artigo no novo Código de Ética Médica, uma resolução da Anvisa e um "código de condutas" da associação das indústrias- que tentam evitar o conflito de interesses na relação entre médicos e laboratórios.
"O problema é que não existe um controle rigoroso de nenhuma das partes", diz Volnei Garrafa, professor de bioética da UnB.
Laboratórios dizem que conduta é rigorosa
As entidades que representam as indústrias farmacêuticas nacionais e internacionais avaliam que seus códigos de conduta são rigorosos e que já vêm sendo cumpridos pelos laboratórios.
O código de ética da Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa) veta, por exemplo, o financiamento de eventos médicos em resorts e viagens de primeira classe para participação em congressos.
"Temos uma comissão de ética que, quando vê problemas, pune", afirma Antônio Britto Filho, presidente da Interfarma. A entidade reúne 29 laboratórios, a maioria multinacionais, que representam 54% do mercado brasileiro de medicamentos.
De acordo com Britto, a entidade se juntou ao CFM (Conselho Federal de Medicina) para revisar o código de conduta, que está em vigor há dois anos. "Para nós é essencial que essa relação fique dentro do campo ético. É claro que existem desvios. Mas de onde eles vêm? De que tipo de médico e de indústria estamos falando?, questiona Britto Filho, da Interfarma.
A Alanac (Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais) diz que segue as resoluções da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), do CFM e de um código de ética da entidade. Carlos Alexandre Geyer, presidente da Alanac, diz acreditar que a fidelidade do médico a determinado laboratório esteja mais relacionada à confiança em relação ao produto do que a eventuais brindes ou benefícios.
"Não posso aceitar que uma empresa use o poderio econômico para subornar médicos e que os profissionais aceitem isso. A disputa tem que se dar pela qualidade do produto e na forma como você leva a mensagem ao médico", diz ele.
Sedução da indústria começa com estudantes de medicina
O processo de sedução da indústria de medicamentos e de equipamentos já começa nos bancos das escolas médicas. Na pesquisa do Cremesp, 74% dos médicos declararam ter presenciado ou recebido benefícios durante os seis anos de curso.
Outros 58% receberam a visita de representantes da indústria no hospital-escola. Um percentual menor (13%) teve financiamento para participar de eventos científico, cultural ou esportivo. "Os brindes, os patrocínios já começam na graduação. Quando formado, o médico continua achando a relação natural", diz Bráulio Luna Filho, do Cremesp.
No EUA, a principais escolas médicas, como Harvard, Stanford e Michigan, criaram regras para combater o conflito de interesse. Representantes da indústria, por exemplo, não podem circular nos hospitais-escola. Em Harvard, estudantes têm criticado professores que recebem presentes ou dinheiro da indústria farmacêutica (fazendo pesquisa ou dando cursos ou palestras). A questão é: até que ponto há isenção no que eles estão ensinando aos alunos?
Segundo Marcos Boulos, diretor da Faculdade de Medicina da USP, alguns setores do Hospital das Clínicas- como o de infectologia- já restringem o acesso dos representantes da indústria, embora outros ainda dependam das amostras grátis.
Mas ainda não há políticas de restrição em relação aos estudantes. Na sua opinião, só é justificável um professor da USP ter atividades financiadas pela indústria se ele estiver envolvido em alguma pesquisa clínica dentro da universidade.
Da redação com informações do Cremesp e Folha de S.Paulo