A abordagem num veículo de comunicação de massa, como a televisão, em horário nobre, de um tema altamente relevante para a sociedade como é a questão do uso de medicamentos - neste caso dos fitoterápicos - deveria contribuir para esclarecer e não confundir ainda mais a população. É o que está acontecendo com a série "É bom pra quê?", veiculada pelo programa dominical Fantástico, da Rede Globo. Manifestações contrárias à abordagem da série surgem às dezenas, como a carta da farmacêutica e pesquisadora Andresa Aparecida Beretta, que reproduzimos.
Andresa Aparecida Berretta e Silva enviou uma carta à produção do programa citado, onde ela manifesta a sua indignação ao tratamento que o programa tem feito sobre o assunto. Ela se diz triste e lesada "com o descaso da reportagem e mais ainda pelas perdas irreparáveis que a população pode sofrer com um tipo de reportagem com um conteúdo tão desonesto como o que está sendo veiculado. Resta-nos desejar, ou melhor, solicitar encarecidamente a esta equipe, que convide um representante da COFID (Coordenação de Fitoterápicos, Dinamizados e Notificados) da ANVISA para se manifestar quanto às normas reguladoras vigentes e sobre as pesquisas pré-clínicas e clínicas que as empresas que produzem medicamentos fitoterápicos precisam apresentar à esta Gerência a fim de se obter um registro de medicamento fitoterápico, a fim de reverter um pouco dos danos da reportagem à população e a todo um setor que trabalha com seriedade e documentação científica capaz de dar suporte à venda de medicamentos, diferente do conteúdo que o Dr. está veiculando, demonstrando que o mesmo não se interou adequadamente do assunto".
Carta à Rede Globo referente à série “É bom pra quê?”
Andresa Aparecida Berretta e Silva, Farmacêutica-Pesquisadora
À REDE GLOBO DE TELEVISÃO
EQUIPE TÉCNICA DO PROGRAMA “FANTÁSTICO”
REF. SÉRIE DO DR. DRAUZIO VARELLA: “É BOM PRA QUÊ?”
Prezada Equipe Técnica,
No último dia 29, a população teve acesso ao início de uma série que prometia ser muito interessante, já que a mesma teria a oportunidade de receber informações de qualidade sobre os benefícios ou não das plantas medicinais, que é um assunto que merecia ser abordado no Programa “Fantástico” há muito tempo.
Surpreende, no entanto, que a reportagem seja conduzida por um profissional que não tenha nenhum conhecimento no assunto foco e tampouco experiência com os medicamentos abordados, ficando assim, muito prejudicado e confuso o conteúdo que está sendo veiculado, prejudicando a população, quando se esperava, na verdade, um conteúdo que orientasse “sem viés” a mesma sobre o uso racional de fitoterápicos, assim como já se faz com os medicamentos sintéticos e que se pode melhorar no caso dos fitoterápicos.
É fato que a população se automedica com plantas, e pior, com medicamentos sintéticos, cabendo aos profissionais de saúde e aos veículos de comunicação, uma adequada orientação quanto aos riscos e benefícios dos medicamentos de venda livre e dos vendidos sob prescrição médica, além disso, incluem-se nessa lista, os fitoterápicos, produtos devidamente legalizados pela ANVISA, através de normas claras de identidade, qualidade, segurança e eficácia (RDC n. 14/2010), conforme destacado abaixo:
“§ 1º São considerados medicamentos fitoterápicos os obtidos com emprego exclusivo de matérias-primas ativas vegetais, cuja eficácia e segurança são validadas por meio de levantamentos etnofarmacológicos, de utilização, documentações tecnocientíficas ou evidências clínicas.
§ 2º Os medicamentos fitoterápicos são caracterizados pelo conhecimento da eficácia e dos riscos de seu uso, assim como pela reprodutibilidade e constância de sua qualidade. (Grifo nosso)- RDC n. 14/2010.
Acredito que tais trechos demonstram claramente que os fitoterápicos são regulados em nosso país e este fato não é de conhecimento do Dr. Drauzio, no caso, um médico que não conhece plantas medicinais, já que se conhecesse, em seu exemplo sobre a aspirina, saberia explicar que tal substância foi gerada a partir do ácido salicílico, proveniente da planta medicinal Salix Alba ou Salgueiro.
A obtenção de fitoterápicos parte sim, na grande maioria dos casos, do conhecimento popular, isso é tão evidente que o CGEN (Conselho de Gestão do Patrimônio Genético) estabeleceu normas de acesso ao conhecimento tradicional associado, justamente para regular o acesso a tais informações. Diante da falta de ética, como é o caso da série “É bom pra quê?”, o CGEN deveria também criar normas e solicitar um procedimento para repórteres, já que, como se pôde perceber, a reportagem “acessou conhecimento tradicional” e expôs os entrevistados ao ridículo, quando os mesmos achavam estar fazendo algo de bom mostrando a precariedade da saúde nas regiões entrevistadas. O Brasil é um país rico em pesquisadores, que fazem pesquisas sérias publicadas em revistas científicas renomadas na área de fitoquímica, farmacologia, que envolvem estudos pré-clínicos de segurança e eficácia, além de pesquisas clínicas. É uma ironia e ao mesmo tempo uma vergonha, o Dr. dizer em resposta a uma pergunta da Revista Época, que não existe pesquisa clínica com fitoterápico, e pior, que não existe ninguém querendo fazer, como apresentamos abaixo, demonstrando que ele não teve muito interesse em procurar ou que é o único médico que pensa em pesquisa clínica nesse país, realmente, fantástico,
“.... Não existe estudo assim. E ninguém está disposto a fazer. Os defensores dessa chamada medicina natural querem que o mundo aceite que é desse jeito e acabou. Sem nenhum estudo e sem passar por todo processo de avaliação científica que os medicamentos passam para poder ter a ação demonstrada” (Grifo nosso).
Sugiro à equipe do programa entrevistar centros de pesquisa clínica que conduzem esse tipo de protocolo clínico que o Dr. Drauzio parece conhecer bem, como ocorre na Universidade Federal do Ceará, e entrevistar médicos com conhecimento de causa como o Dr. Manoel Onorico de Moraes, quem sabe ele sim tem capacidade técnica de discorrer sobre um trabalho tão sério que vem sendo realizado.
O desenvolvimento de um medicamento é um trabalho muito sério e que começa sim, com os ensaios em tubos de ensaio realizados nos laboratórios das Faculdades de Farmácia, a partir das informações colhidas na população, como o próprio Dr. Drauzio já fez, apesar de não ser farmacêutico. E engraçado, porque será que ele ainda não fez uma pesquisa clínica com fitoterápicos, já que testou tais produtos em laboratório como o fazem os farmacêuticos, pois, constam em seu curriculum, disponível na Plataforma Lattes, trabalhos como os citados abaixo. Talvez ele como médico pudesse conduzir uma pesquisa clínica com fitoterápicos ao invés de realizar estudos que são de competência dos farmacêuticos, já que como ele diz “ninguém está disposto a fazer”, que absurdo, como ele repete inúmeras vezes.
“VARELLA, A. D. ; SUFFREDINI, I. B. ; YOUNES, R. N. ; KANEKO, T. M. S. ; OHARA, M. T. ; BACCHI, E. M. . Screening of Amazonian plants as antimicrobial agents. Apocynaceae. In: 41st Annual meeting of the american Society of Pharmacognosy, 2000, Seattle. 41st Annual meeting of the american Society of Pharmacognosy, 2000.
Ressalte-se que o desenvolvimento de fitoterápicos e sintéticos se inicia assim, com uma pesquisa preliminar, porém têm um longo caminho a ser trilhado. A triagem inicial serve tão somente como início dos trabalhos, faz-se inúmeras partições da droga vegetal, visando à separação e a identificação dos compostos presentes na planta, através da elucidação estrutural, que utiliza recursos de química analítica de alta tecnologia. Após essa etapa ou em paralelo com esta, são realizados os estudos de segurança e eficácia com o extrato bruto e/ou suas frações e/ou seus compostos isolados majoritários. Uma vez identificado um extrato com potencial, ou seja, aqueles que apresentaram resultados satisfatórios nos estudos “in vitro” e “in vivo”, e também seguros, ou seja, aqueles que passam para as etapas de pesquisa sobre a toxicidade, o mesmo é padronizado com base em compostos identificadores da planta medicinal e preferencialmente que tenham relação com a atividade terapêutica do produto. A pesquisa clínica segue os moldes convencionais, cartesianos, como evidenciado em inúmeras pesquisas já publicadas pelo mundo com plantas, e assim, não dá para entender porque o Dr. somente enfatiza a ausência de tais ensaios para os medicamentos fitoterápicos quando facilmente esses trabalhos são encontrados em sites de busca especializados como o “Pubmed”, fonte que seguramente o Dr. conhece.
Também é fato que em todas as áreas do conhecimento existem bons e maus profissionais, assim, a utilização sem critérios dos medicamentos fitoterápicos e/ou a prescrição de plantas ainda não suficientemente estudadas, assim como o descarte das terapias convencionais, quando necessário, é um ato de irresponsabilidade destes profissionais da saúde, porém, não se pode dizer que as plantas ou o imenso grupo de pesquisadores sérios que vem exercendo excelente trabalho de pesquisa e desenvolvimento sejam equivocadamente lesados, além de toda a cultura da população brasileira. Ser chamado de “idiotas” por um “doutor”, que sequer tem mestrado ou doutorado, conforme documenta seu curriculum lattes, isso sim é que é uma idiotice.
Eu, uma farmacêutica-pesquisadora, formada em 1999 pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo, campus de Ribeirão Preto (FCFRP/USP), que estou no mercado há somente 10 anos, com mestrado e doutorado em fármacos e medicamentos, e medicamentos e cosméticos, respectivamente, na mesma Universidade, trabalhando com o desenvolvimento e avaliação de um produto natural para tratamento pré-clínico e clínico em pacientes queimados, testados na Unidade de Queimados da Unidade de Emergência da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/USP, assim como acredito que os demais pesquisadores que trabalham com princípios ativos naturais, em qualquer área, com fitoterápicos ou compostos isolados, sentimo-nos tristes e lesados com o descaso da reportagem e mais ainda pelas perdas irreparáveis que a população pode sofrer com um tipo de reportagem com um conteúdo tão desonesto como o que está sendo veiculado. Resta-nos desejar, ou melhor, solicitar encarecidamente a esta equipe, que convide um representante da COFID (Coordenação de Fitoterápicos, Dinamizados e Notificados) da ANVISA para se manifestar quanto às normas reguladoras vigentes e sobre as pesquisas pré-clínicas e clínicas que as empresas que produzem medicamentos fitoterápicos precisam apresentar à esta Gerência a fim de se obter um registro de medicamento fitoterápico, a fim de reverter um pouco dos danos da reportagem à população e a todo um setor que trabalha com seriedade e documentação científica capaz de dar suporte à venda de medicamentos, diferente do conteúdo que o Dr. está veiculando, demonstrando que o mesmo não se interou adequadamente do assunto.
Diante de todo esse absurdo, como se indigna a todo o momento em sua reportagem o Dr. Drauzio, venho também me indignar: como pode um médico que não teve em sua grade curricular disciplinas que versam sobre princípios ativos naturais, e que não fez nada na área, que não tem sequer experiência clínica no assunto conduzir um quadro como este? Que conhecimento de causa pode ter esse profissional? Como pode se indignar e dizer que não existem profissionais fazendo pesquisa clínica nisso e que tampouco existe esta intenção? Não só existem inúmeros trabalhos sendo conduzidos na área como também existe dinheiro público sendo gasto para este fim, como tem sido realizado através de apoio financeiro de órgãos como CNPq e FINEP, com suporte do MCT.
Realmente, resta-nos acreditar que até o fim da série, isso possa ser esclarecido adequadamente e que o trabalho de muitos pesquisadores e médicos brasileiros não seja denegrido como parece que vai acontecer.
Andresa Aparecida Berretta e Silva
Farmacêutica-Pesquisadora
Com informações da Acesso - Mercado e Políticas Públicas de Medicamentos