Uma das saídas apontadas por especialistas para diminuir a pressão dos laboratórios sobre as agências reguladoras é garantir - por meio de mudança na legislação - que todo o processo de análise e aprovação de medicamentos seja custeado com dinheiro público. Atualmente, tanto no Brasil como nos Estados Unidos, boa parte do orçamento das agências vem das taxas que a indústria paga quando pede avaliação de um produto.
Desde que essa prática foi adotada nos EUA, em 1992, o tempo de aprovação de novas drogas caiu significativamente. "Se a indústria paga para fazer o serviço, espera uma resposta. E, geralmente, ela é dada de forma positiva", diz o sanitarista José Ruben Bonfim.
Para ele, seria necessário investimento público para engrossar o corpo técnico da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). "A aprovação de medicamentos é extremamente complexa e requer um quadro diversificado e experiente. O corpo técnico da Anvisa não tem condições de fazer a análise como deveria", diz.
Pressão Por meio de sua assessoria de imprensa, a Anvisa afirmou que precisa de mais recursos humanos e tem solicitado a abertura de concursos públicos. Negou, porém, que as taxas pagas pela indústria deixem a agência suscetível à pressão do mercado e afirmou haver "mecanismos legais para evitar que a agência se alinhe ao interesse do regulado em vez do interesse social".
Bonfim afirma que 80% dos fármacos novos não estariam no mercado se o interesse social fosse o único parâmetro considerado durante a aprovação de medicamentos. Ele defende a criação de uma "cláusula da necessidade" para garantir que a agência priorize a análise de drogas realmente necessárias para a sociedade.
Especialistas também defendem a divulgação integral de todos os dados brutos relacionados a pesquisas clínicas para avaliar segurança e eficácia de medicamentos.
Em janeiro, o British Medical Journal (BMJ) publicou um artigo com ideias para forçar a divulgação. O objetivo é permitir o escrutínio público e independente dos resultados. "Devemos considerar qualquer estudo clínico financiado pela indústria e publicado em revistas científicas como propaganda, até que se prove o contrário", afirmam os autores. Um deles, Tom Jefferson, entrou em atrito com a Roche ao demandar dados adicionais dos testes relacionados ao Tamiflu.
Fiona Godlee, editora do BMJ, argumenta que revistas científicas médicas podem exercer uma pressão benéfica sobre a indústria ao exigir a divulgação de todos os dados como precondição para a publicação de artigos científicos com resultados de testes clínicos. Ela diz que o tema estará na pauta da reunião internacional dos editores, que será realizada nos próximos meses.
A Journal of the American Medical Association (Jama), uma revista de prestígio na área médica, passou a exigir uma análise estatística independente nos artigos sobre estudos clínicos. Desde então, começou a receber menos trabalhos sobre testes clínicos. No mesmo período, cresceu o envio desse tipo de estudo para outras revistas médicas de prestígio.
Fonte: O Estado de S.Paulo