De Belém, Renata Mielli Na atividade mais importante de todas as edições do Fórum Social Mundial, os presidentes da Venezuela, Bolívia, Equador, Paraguai e Brasil debateram a América Latina e os desafios da crise econômica internacional fazendo o mais contundente contraponto da história do FSM à realização da reunião de Davos. Os presidentes fizeram um chamado à unidade e integração da América Latina para fortalecer os países diante da crise. Os países ricos foram culpados pela crise e seus representantes reunidos em Davos foram chamados de "moribundos" e deixaram o recado de que os pobres não vão pagar por essa crise. No FSM, neste dia 29, os presidentes deram o recado: Um outro mundo é possível, necessário e está nascendo hoje na América Latina".
A governadora do Pará, Ana Júlia Carepa iniciou a atividade registrando que aquele era um momento histórico. "Todos os olhos de quem acredita que um outro mundo é possível estão voltados para cá, porque a presença desses presidentes é a demonstração de que construir esse novo mundo é possível. Essa é a vitória da democracia, esse momento enche o nosso coração de esperança porque nós estamos escrevendo um novo caminho". E, de fato, a conferência deste dia 29, que reuniu mais de 10 mil pessoas em Belém, entra para a história como o evento mais importante de todas as edições do Fórum Social Mundial.
Isso porque o FSM, que nasceu para ser um contraponto à reunião de Davos, na Suiça, ao reunir cinco presidentes de países importantes da América Latina nesta 9ª edição, demarca um importante campo político com o modelo econômico mundial vigente, mostrando que uma alternativa não apenas é viável, mas que já está sendo construída através das experiências latino-americanas e caribenhas.
O mediador do encontro dos presidentes, Cândido Grzybowski, diretor-geral do Ibase - Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas que ao lado do Instituto Paulo Freire e da CUT co-promove a atividade, iniciou afirmando que "queremos abrir pontos de diálogo com governantes, inclusive com Barack Obama, se for o caso, mas com aqueles que neste momento estão em Davos nós não temos nada para trocar, e sim cobrar porque eles são os artífices da crise. E apontou o objetivo do encontro dos presidente "é um esforço mútuo de indagar questões e mapear convergência e divergências".
Sepultura para o capitalismo
Evo Morales foi o primeiro presidente a se dirigir ao público composto por índios de várias regiões da Pan-Amazônia, participantes de vários países do mundo que representavam movimentos sociais e organizações não-governamentais. Ele afirmou que "esse é o início de uma série de encontros dos presidentes anti-neoliberais contra o capitalismo".
Morales falou do referendo na Bolívia, que aprovou uma nova Constituição. "No último domingo, abrimos uma nova página em nosso país para que nunca mais privatizemos nossos recursos naturais, e para reconhecermos os direitos das populações originárias numa demonstração da consciência do povo boliviano".
Ao referir-se à crise, que é parte da crise do capitalismo, o presidente da Bolívia foi taxativo,"se nós - o povo do mundo - não conseguirmos sepultar o capitalismo, o capitalismo vai sepultar o mundo".
Ele propôs a criação de quatro campanhas para combater a crise e fortalecer a economia e a soberania das nações pobres. Uma campanha mundial pela paz, que julgue os responsáveis por essas guerras nos tribunais de justiça e que acabe com o direito de veto no Conselho de Segurança da ONU, "porque não é possível que um país tenha mais direito do que 160 nações". A luta por uma nova ordem econômica e social de justiça e desenvolvimento, que reforme os organismos internacionais e que paute o mundo por indicadores de distribuição de riqueza seria a segunda campanha. Ele pontuou ainda a criação de uma campanha para salvar o planeta, alterando os padrões de consumo da sociedade e outra campanha que valorize a humanidade através da diversidade e respeito cultural, "só uma humanidade que valoriza a si mesma pode sepultar o capitalismo".
Os moribundos de Davos
O presidente do Equador, Rafael Correa, foi duro ao se referir ao Fórum Econômico Mundial. "Os representantes do capitalismo estão reunidos nesse momento em Davos para traçar as linhas de ação do mundo frente a crise - eles que são os responsáveis por essa crise querem nos dar lições", ironizou e em seguida, não poupou palavras: "Lá estão reunidos os moribundos".
Correa, que é economista, fez um discurso que caracterizou esta crise como sendo uma crise de todo o sistema capitalista, "uma forma imoral de acumulação de riquezas que levou os países à miséria". Ele denunciou o fato de os defensores da primazia do capital financeiro sobre o capital produtivo recorrerem agora ao Estado para salvar suas economias.
"No Equador temos resistido ao neoliberalismo, estamos pondo fim à noite neoliberal. É hora de algo novo e felizmente esse novo está surgindo aqui na América Latina", disse Correa ao falar sobre a necessidade de uma ação conjunta e coletiva que tem no Estado um papel importante. "Não somos estatistas, mas o que é necessário é uma ação coletiva para superar as dificuldades do povo e o Estado pode ser o estruturador dessas ações", e informou que "no Equador temos um Plano Nacional de Desenvolvimento que articula todas as políticas públicas do Estado para impulsionar o desenvolvimento da economia e a diminuição das misérias e desigualdades sociais".
O presidente equatoriano apontou como principal caminho para enfrentar a crise acelerar a integração da América Latina. "Como nunca antes temos que estar unidos, buscar intercâmbio para criar políticas conjuntas de infra-estrutura energética, de saúde, de educação. Temos que acelerar o Banco do Sul, que pode servir para nos proteger um pouco da crise . Só com a organização dos Estados Latino-americanos vamos fazer frente ao capitalismo.
Concluiu dizendo que é preciso ter cuidado com a crise, porque ao mesmo tempo que ela pode gerar oportunidades, "pode também ser usada para desestabilizar os nosso governos". Para se despedir do público de Belém usou a saudação imortalizada por Che "Até a vitória, sempre!.
A peste econômica
Usando uma retórica mais poética e cheia de simbolismos, o presidente do Paraguai, Fernando Lugo, saudou o Fórum dizendo que via com muita alegria "esse espírito humanista e a solidariedade inteligente para enfrentar os nossos desafios com dureza e ternura. Estamos ensinando para todos que existe uma alternativa, que sim é possível transformar o planeta. Os que perguntam para que serve o FSM não aprenderam a olhar ao seu redor - há mudanças na América Latina e a esperança de que haja mudanças no norte também", referiu-se indiretamente à eleição de Barack Obama.
Lugo nomeou a crise econômica como resultado da ação inconseqüente dos países ricos, o neoliberalismo, "a peste econômica que atingiu a América latina nos anos 90". Para ele, uma das formas de enfrentar esse momento é a ação conjunta e soberana das nações latino-americanas. "Nós temos os Andes, a Amazônia, temos a maior fonte de energia renovável do mundo, um banco diversificado de plantas medicinais, então, o que nos falta? Falta muito e pouco. Falta usar esses recursos para fortalecer nossas economias", avaliou.
Denunciou os crimes cometidos no Oriente Médio. "Como é possível nesse momento em que a humanidade domina a tecnologia, espaço para as mortes mais cruéis", disse referindo-se aos ataques de Israel à Faixa de Gaza. "Não podemos ser apenas observadores diante a ameaça planetária de guerra"
"As mudanças já se vêem, já se respiram nos ares do Fórum Social Mundial", afirmou e citando o cantor brasileiro, Geraldo Vandré conclamou a todos para que continuemos "caminhando e cantanto e seguindo a canção - aprendendo e ensinando uma nova lição".
Vamos apurar nossa unidade
Num dos discursos mais rápidos já proferidos, Hugo Cháves usou cerca de 15 minutos para dizer que acredita que "a cada ano que passa o evento político mais importante do mundo é o Fórum Social Mundial". Para Cháves a sua criação foi muito oportuna porque aconteceu num momento de efervescência política no continente.
"A América Latina foi o laboratório do neoliberalismo que, como disse Eduardo Galeano, arrasou nosso continente. Assim como a América Latina recebeu a maior dose de veneno neoliberal, foi também onde brotou com mais força as mudanças que vão transformar o nosso planeta. Outro mundo é possível, necessário e está nascendo hoje na América Latina", afirmou com a contundência que lhe é peculiar o presidente da Venezuela.
Chávez disse que 2009 vai ser duro para o mundo, "segundo a OIT - Organização Internacional do Trabalho, se perderão 50 milhões de postos de trabalho e a fome deverá crescer e chegar à casa de 1 bilhão de pessoas. Não podemos esperar nada dos outros, senão de nós mesmo".
E fez um apelo pelo aprofundamento da unidade. "Diante dessa crise temos que apurar nossa unidade, com o Bando do Sul, com o fortalecimento das nossas empresas energéticas, com estratégias de articulação de um projeto latino-americano. Nesse projeto unitário está o coração do novo continente", avaliou.
Para Cháves, o socialismo é o único caminho, "agora ele não pode ser cópia, tem que ser criação. Nós somos presidentes graças ao despertar dos nossos povos, e por isso vocês têm que continuar lutando".
Mudanças em curso
Lula optou pela informalidade e deixou de lado o discurso que iria ler. Começou fazendo um pedido: "Guardem essa fotografia porque hoje a gente pode até reclamar dos presidentes que nós temos, mas até bem pouco tempo os que ousavam discordar de seus presidentes eram perseguidos e mortos, muitos jovens pegaram em armas para lutar pela democracia e hoje nós estamos aqui fazendo o que eles sonharam. O mundo mudou tanto que era impossível dizer que um bispo da Igreja Católica seria presidente do Paraguai, que um jovem economista ia chegar à presidência do Equador, impossível pensar que um índio com cara de índio e jeito de índio chegasse à presidência da Bolívia e, aqui no Brasil, era impossível pensar que um torneiro mecânico seria presidente. Mas as coisas não param por aqui, quem podia pensar, que teórico poderia prever, que o país do apartheid que matou Martin Luther King ia eleger um negro para presidente dos Estados Unidos", disse Lula.
Ao falar da crise, recordou como até bem pouco tempo os ricos e "yuppies" norte-americanos ficam ditando regras para os países mais pobres. "Parecia que eles eram infalíveis e nós os incompetentes", ironizou e lembrou que agora eles estão calados porque a crise eclodiu justamente lá.
A crise do "Deus Mercado"
"A crise nasceu porque eles venderam a idéia de que o Estado não servia para nada e o "deus mercado" que tudo pode e é soberano podia tudo. Só que esse deus mercado quebrou por irresponsabilidade deles. Agora eu quero ver o FMI ir dizer para o Obama como é que eles vão consertar a crise que eles criaram", falou sobre fortes aplausos.
Lula listou as medidas que os organismos internacionais impunham aos países em desenvolvimento "eles nos obrigaram a fazer ajuste fiscal, mandar trabalhadores embora, reduzir o estado e os serviços sociais e agora quando eles entraram em crise qual foi o deus a quem eles pediram socorro - ao Estado que já injetou milhões de dólares para salvar empresas mundo afora".
O presidente alertou que a crise é grave e que ainda não se conhece o fundo dela, mas foi contundente ao dizer que os países em desenvolvimento estão em melhores condições de enfrentá-la do que os ricos". Disse que já passou da hora de se discutir discutir o controle do mercado financeiro e foi taxativo: "Aqui o povo pobre não será o pagador dessa crise".