O levantamento divulgado pelo IBGE e Conta Satélite de Saúde – Brasil mostra que as famílias gastam 29,5% a mais do que os governos para terem acesso à saúde (consultas médicas e odontológicas, plano de saúde, hospitais, exames e medicamentos).
Enquanto o gasto público por pessoa é de R$645,27, o gasto per capita das famílias fica em R$835,65. No país, 55,4% das despesas totais do setor são arcadas pelas famílias, enquanto 43,6% são cobertas pela administração pública.
Esta é a primeira vez que o IBGE calcula a despesa com saúde por pessoa. Os dados são referentes a 2009, mas o panorama é confirmado nos anos anteriores. Para o gerente da Coordenação de Contas Nacionais do IBGE, Ricardo Montes Moraes, o desequilíbrio entre os gastos de famílias e governo foge a um padrão normal.
Despesa com medicamentos
Em 2009, de cada R$ 100 gastos pelas famílias em saúde, R$ 35,70 foram para compra de medicamentos, uma aumento de R$ 1,07 com relação a 2008, quando o gasto foi de R$ 34,63 para cada R$ 100,00. Em 2009, estes gastos corresponderam a 1,9% do PIB, um pequeno crescimento frente a 2008, quando correspondiam a 1,8%.
"Esperava uma redução da despesa com remédios em função do programa Farmácia Popular, que começou em 2006 (quando foi estendido para a rede privada de farmácias)", avalia a professora da UFRJ Ligia Bahia, coordenadora do Laboratório de Economia Política da Saúde.
Segundo o IBGE, o programa de venda de remédios a preços populares não impactou as contas da saúde no período 2007-2009, mas será percebido no triênio seguinte.
Para a Fenafar, o aumento relativo do peso do medicamento nos gastos familiares exige cada vez mais a presença qualificada do profissional farmacêutico no atendimento ao usuário, com o objetivo de orientar o uso racional do medicamento.
Evolução
Descontada a inflação, a despesa pública com saúde cresceu 5,2% entre 2008 e 2009 e o consumo das famílias aumentou 3,5%.
Embora gastos públicos cresçam mais que os privados, o peso das famílias no total de despesas cai lentamente. Em 2005, as famílias eram responsáveis por 60% dos gastos totais em saúde. Essas despesas incluem, além dos gastos diretos da população, o pagamento das empresas privadas dos planos de saúde e de seus funcionários.
"Se temos um sistema universal de saúde, é perverso que os gastos privados sejam tão altos. Estamos em situação semelhante à dos EUA, mas eles construíram um sistema privado de saúde. Lá, os gastos com planos de saúde são altos, mas a maioria tem cobertura para medicamentos, por exemplo. O padrão de financiamento brasileiro não é e não caminha para o sistema universal de saúde, em que os gastos públicos são da ordem de 70% do total de despesas", diz a professora da UFRJ.
Em países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), no mesmo ano, o gasto do governo na saúde foi muito superior, com o Estado respondendo por quase três quartos das despesas com saúde (72%) dos cidadãos, percentual que não sofreu muitas variações nos últimos 20 anos. Diferentemente do Brasil, na conta dos países desenvolvidos, a administração pública contabiliza também gastos com investimento em saúde (construção de hospitais e compra de equipamentos).
O economista Antonio Correa de Lacerda, da PUC-SP, considera que o quadro tem se agravado nos últimos oito anos, com o aumento da renda e o envelhecimento da população. "De um lado, temos a carência de um serviço público de qualidade, que empurra as pessoas para o privado e, de outro, milhões têm ascendido socialmente e contratado planos de saúde", afirma.
Emprego público na saúde ficou menor
O gasto maior da administração pública não se refletiu no mercado de trabalho. A abertura de vagas na área caiu: com 58.961 postos a menos que em 2008. O volume de serviços de saúde ofertados pelo governo também desacelerou de 6,3%, em 2008, para 5,2%, em 2009.
Ao todo, foram criadas 115 mil vagas na saúde em 2009. Os pesquisadores não sabem explicar se a redução no número de vagas está relacionada a servidores que se aposentaram e não tiveram a vaga reposta ou se houve aumento da contratação de terceirizados. "A saúde pode estar perdendo postos diretos para indiretos", avalia Maria Angelica dos Santos, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz.
Da redação com agências