Em dez anos, triplicou o número de mulheres com 50 anos ou mais com Aids no Brasil. Embora a maioria da população brasileira saiba da importância do uso do preservativo para evitar o avanço do vírus HIV, mulheres e homens nessa faixa etária resistem à idéia. A vulnerabilidade das mulheres está associada à dificuldade de negociar com os parceiros casuais o uso do preservativo.
O avanço da doença entre as mulheres com mais idade inspirou o tema da campanha nacional de prevenção à Aids no carnaval deste ano. Em entrevista à Agência Saúde, os ministros da Saúde, José Gomes Temporão, e da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, Nilcéa Freire, falam da importância do uso do preservativo e do fortalecimento da mulher para que exerça sua sexualidade de forma mais protegida. De acordo com Temporão, a camisinha ainda é o método mais seguro para evitar a transmissão da doença.
A ministra Nilcéa Freire afirma que “o padrão cultural dominante ainda é machista e patriarcal”, o que explica a dificuldade enfrentada pelas mulheres para convencer seu parceiro casual a usar preservativos. A seguir os principais trechos da entrevista dos ministros.
Como a mulher pode contribuir para o esforço de prevenção à Aids?
Ministra Nilcéa Freire - Cuidando de si mesmas e exercendo o poder ao qual tem direito nas relações com seus parceiros. Cada uma de nós pode também contribuir com a prevenção alertando nossas filhas e filhos dos riscos de uma relação sexual desprotegida, e que a camisinha não atrapalha o pleno exercício da sexualidade. Falar de sexo sem hipocrisia e preconceito com jovens de todas as idades também é uma grande contribuição.
Mesmo no mundo moderno, estudos indicam que ainda é difícil para a mulher negociar o uso do preservativo nas relações. Como vencer essa barreira?
Ministra Nilcéa Freire - As dificuldades na negociação do uso do preservativo têm como fundamento a desigualdade de gênero. Culturalmente ainda é suposto que são os homens que definem como deve se dar a relação sexual. É preciso evidenciar os problemas decorrentes deste comportamento. A desigualdade entre homens e mulheres faz mal à saúde. Dados da pesquisa de comportamento do Ministério da Saúde mostram que, em dez anos, a incidência da Aids entre mulheres acima dos 50 anos mais que triplicou. Estes dados revelam uma mudança no comportamento sexual da sociedade. Por essa razão, o foco principal da campanha de Carnaval, deste ano, está nessas mulheres. O Bloco da Mulher Madura – mote da ação – traz de forma descontraída peças publicitárias que informam sobre a importância da prevenção nessa faixa etária.
O fato da campanha deste ano colocar seu foco nas mulheres maduras confirma a percepção da mudança de comportamento na sociedade. Como isso aparece nas relações de gênero?
Ministra Nilcéa Freire - Esta percepção não é geral daí a importância da campanha. O fato de as pessoas maduras homens e mulheres terem uma vida sexual ativa para além dos cinqüenta anos não implica que as relações de gênero na sociedade tenham mudado. O padrão cultural dominante ainda é machista e patriarcal. A crença na fidelidade e na proteção de relações afetivas estáveis ainda são valores muito presentes nas pesquisas comportamentais que interferem negativamente no uso de preservativo.
Como as políticas públicas podem reforçar o espaço da mulher a ponto dela ter mais autonomia para defender o direito de ter uma melhor saúde?
Ministra Nilcéa Freire - As políticas de promoção e garantia de direitos para as mulheres contribuem para a equilibrar o poder entre homens e mulheres. É preciso intervir em diferentes dimensões, de maneira integral e conjugada, para modificar a cultura de subordinação machista. Igualdade de tratamento e de oportunidades nos âmbitos público e privado podem ser propiciados por programas nas áreas de educação, trabalho, cultura, saúde etc. O II Plano Nacional de Políticas para as Mulheres é no governo federal a materialização do compromisso deste governo com a autonomia e a igualdade para as mulheres, nele há um capítulo que trata especificamente dos direitos sexuais e reprodutivos e da saúde das mulheres.
E os homens têm papel neste processo?
Ministra Nilcéa Freire - Evidentemente os homens têm um papel fundamental. É a partir da consciência de que relações igualitárias trazem mais felicidade e prazer que vamos conseguir “desconstruir” os padrões culturais vigentes. Concluo citando uma adaptação de uma frase atribuída a Einstein “é mais fácil desintegrar um átomo do que acabar com um preconceito”, portanto mãos à obra que ainda há muito trabalho pela frente!
Por que colocar a mulher madura no foco desta campanha e não outros públicos como jovens, adolescentes ou mesmo homens que fazem sexo com homens?
Ministro Temporão - A cada campanha pretendemos atingir um público específico para a prevenção e combate à Aids. Os jovens, por exemplo, foram público-alvo do carnaval dos últimos 5 anos. Neste ano, a idéia é sensibilizar as mulheres com mais de 50 anos, pois as pesquisas indicam que a incidência de Aids nessa faixa etária praticamente triplicou nos últimos 10 anos. Vale lembrar que, no final de 2008, no Dia Mundial de Combate à Aids, o nosso público alvo foi o de homens dessa idade. Essas mulheres são sexualmente ativas e bem informadas sobre a transmissão do HIV – 91,8% delas sabem que o vírus é transmitido pelo não uso da camisinha. Embora haja esse conhecimento, menos de 30% usam preservativo com parceiros casuais. As mulheres acima dos 50 anos têm pouco poder de decisão na hora de negociar o uso do preservativo e estão vulneráveis ao HIV. A campanha tem o objetivo de fortalecer as condições da mulher exercer sua sexualidade, de forma mais protegida, e elevar sua auto-estima para que se sinta segura no momento de conversar sobre o uso do preservativo.
O senhor acredita que campanhas como esta são capazes de mudar comportamento?
Ministro Temporão - A campanha promove uma reflexão sobre a importância do uso do preservativo nessa faixa etária. Há uma percepção equivocada da sociedade de que essa população não se relaciona sexualmente. Mas isso é um erro. Mais de 55% possui uma vida sexual ativa. Então, estimular esse debate é fundamental para uma mudança de comportamento, com a reflexão sobre os hábitos dessa população e seu fortalecimento nas atitudes para a prevenção da Aids.
A luta contra o HIV depende apenas do Estado ou a sociedade pode contribuir? De que forma?
Ministro Temporão - As pessoas devem estar informadas sobre os riscos e medidas de prevenção, fazer o teste de Aids, usar camisinha e ter menos preconceito contra as pessoas que vivem com aids. Mudar o rumo da epidemia depende também de cada um de nós. Oferecemos preservativo, testes, mas quem decide se vai usar o preservativo é o indivíduo. É uma luta de todos nós.
Na visão do senhor, qual o principal desafio para a mulher no enfrentamento do HIV?
Ministro Temporão - Ter coragem para negociar o preservativo e falar sobre o assunto. Essa decisão ainda está muito centrada no homem. Avançamos muito nessa questão, mas precisamos ir além.
O Carnaval é um período onde a população realmente fica mais vulnerável à infecção pelo vírus da Aids?
Ministro Temporão - Durante as festas e ainda sobre o efeito do álcool, a camisinha pode ser esquecida. Por isso, fazemos campanhas consistentes para que se lembrem da camisinha. Ela não pode ficar de fora da folia. Em todo o país, são distribuídos preservativos gratuitos nesta época do ano. Usar a camisinha é o único método seguro para evitar a transmissão da Aids no relacionamento sexual.
Fonte: Agência Saúde