Apreensões na fronteira aumentam quase 70% em um ano. Preços mais baixos são atrativos, mas a falsificação e a automedicação representam perigos iminentes.
O contrabando de remédios adquiridos por brasileiros no Paraguai está em alta. Estatísticas da Polícia Rodoviária Federal (PRF) indicam um aumento de 68,9% no número de medicamentos apreendidos no posto de Santa Terezinha de Itaipu - limite com Foz do Iguaçu, na BR-277, principal corredor do contrabando e tráfico da região. De janeiro a julho deste ano, foram 70.821 unidades, contra 41.927 no mesmo período do ano passado.
Cada unidade computada pela PRF refere-se a ampolas, comprimidos ou frascos de medicamentos trazidos de farmácias de Ciudad del Este, na fronteira com Foz do Iguaçu. Entre os mais procurados estão remédios para combater a impotência sexual, perder peso, além de abortivos e anabolizantes, às vezes indicados de forma irresponsável em academias de ginástica.
Conforme o supervisor adjunto da PRF em Foz do Iguaçu Aluízio Aguiar, o incremento das apreensões é explicado pelo aumento da procura. Ele diz que os policiais que fazem a fiscalização observaram desde o segundo semestre do ano passado um maior número de passageiros de ônibus transportando medicamentos. Os preços mais em conta praticados no país vizinho e na Argentina, somados às semelhanças entre medicamentos verdadeiros e falsos são os motivos que têm levado cada vez mais brasileiros a cruzar a fronteira em busca do produto, avalia o representante da Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF) em Foz do Iguaçu, Luciano Stremel Barros.
Na avaliação de Barros, hoje as gráficas estão produzindo embalagens cada vez mais parecidas com as originais, confundindo o consumidor. O atrativo do preço também pesa na hora da compra. Para se ter uma idéia, uma cartela com quatro comprimidos de Viagra, remédio contra a impotência, custa R$ 100 no Brasil. No Paraguai, o remédio pode ser encontrado por US$ 5 (perto de R$ 8). Mas o que os brasileiros não levam em conta é a chance de adquirir um produto falsificado e colocar a própria saúde em risco. Levantamento feito pela ABCF indica que 35 das 42 farmácias de Ciudad del Este vendem Viagra falso. Conforme a ABCF, 90% dos remédios falsificados entram no Brasil pelas fronteiras do Paraguai. Outros 10% referem-se a medicamentos manipulados no próprio Brasil sem o princípio ativo. Os comercializados no Paraguai são importados da China, mas também produzidos no próprio país, onde atualmente há mais de 50 laboratórios em funcionamento.
Em alguns deles são falsificadas marcas conhecidas como o Viagra, e a versão paraguaia chamada Pramil. Outro princípio ativo que vem sendo pirateado no país, segundo Barros, é o Rimonabanto, usado para emagrecer.
Rotas
Legalmente, os remédios só podem ser trazidos do Paraguai mediante um procedimento de importação e com autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Mas, na prática, as cartelas são levadas aos poucos para Foz do Iguaçu para depois serem distribuídas ao restante do país pelas mãos de sacoleiros e contrabandistas. Algumas pessoas nem chegam a cruzar a fronteira e aguardam os remédios no lado brasileiro, trazidos por mototáxis. Boa parte das apreensões são feitas no posto da PRF durante blitze de rotina em ônibus de linha que têm como destino várias regiões do país. Os policiais dizem que o medicamento é transportado em bolsas de viagens ou dentro de caixas. Outros escondem os comprimidos em um colete, preso ao corpo. Há carregamentos com 100 a 300 medicamentos e outros acima de 5 mil. Uma das maiores apreensões foi feita em 2007 no Aeroporto de Foz do Iguaçu. Um sacoleiro tentava levar para Belém (PA) 20 mil comprimidos de Viagra para ser vendido em farmácias. Em 2007, foram encaminhados para o depósito da Receita Federal em Foz do Iguaçu 118.167 mil unidades remédios apreendidas, avaliadas em R$ 298.596 mil.
Em busca da beleza, jovens se arriscam
A preocupação atual das autoridades é com a facilidade de se adquirir remédios no Paraguai e o uso imprudente deles. Algumas mulheres procuram clínicas e massagistas para aplicar no abdome um produto proibido no Brasil. Na região de Foz do Iguaçu, comprar remédios para perder peso e modelar o corpo tornou-se um modismo perigoso. Nesta entrevista, duas jovens, uma de 19 anos e outra de 25, que não quiseram se identificar e estão citadas com nomes fictícios, contam suas experiências. Veja os principais trechos.
O que levou vocês a comprarem remédios no Paraguai?
Sabrina, 25 anos - Comprei no Paraguai porque é superbarato e por ouvir relatos e indicações de pessoas que já compraram.
Maria, 19 anos - Comprei porque todo mundo comentava que estava tomando remédios do Paraguai.
Quais medicamentos vocês tomaram?
Sabrina - Atenix e Fingrass, mais de cinco vezes. Lipostabil e também tomei uma vez o tal do Rimonabanto, que era somente para perder a barriga. Mas fiquei com depressão e uma semana trancada num quarto chorando até perceber que era o remédio que estava provocando isso. Então suspendi o uso.
Maria - Tomei três caixas de Fingrass e emagreci seis quilos em um mês e pouco, mas depois engordei novamente e não penso mais em tomar porque descobri que ele tira o efeito do anticoncepcional. O remédio tirava a fome, mas dava bastante insônia.
Vocês não temem estar adquirindo um remédio falso?
Sabrina - Não. Também não sou a mais indicada para falar sobre isso porque até remédio para cavalo indicado em academias eu já comprei no Paraguai. Inclusive uma pessoa de uma academia em Foz, muito conhecida, foi quem me falou sobre o remédio, chamado ‘diabo verde'. É um descongestionante nasal para cavalos. Só parei de tomar porque fiquei muito tonta e quase sem visão. Comecei a ver tudo branco.
É fácil comprar o remédio e passar pela aduana?
Maria - Eu nunca fui parada.
Por que vocês não procuram outros métodos para emagrecer?
Sabrina - Infelizmente, não temos tempo para fazer exercícios físicos atualmente.
Para lá da fronteira, dá para comprar o que é proibido do lado de cá
Entre os brasileiros que comparam medicamentos no Paraguai, há casos de pessoas que não encontram as mesmas marcas no Brasil - na maioria das vezes porque são proibidas - ou precisam de receita médica para adquirir o produto. Um exemplo é o Cytotec, indicado para problemas de estômago mas que é usado como abortivo, cuja venda está proibida no Brasil. Outros são o Fingrass, remédio para perder peso, Rimonabanto, para perder gordura na região do abdome, anabolizantes e os antiimpotência, cujo número de marcas fabricadas no Paraguai passam de 30. Além do Viagra, há Pontent 75, Cialis, entre outros. A farmacêutica e professora universitária de Foz do Iguaçu Jorgete Tomazetti diz que o consumidor se arrisca quando toma remédios sem receita ou orientação médica. "O medicamento pode ser um veneno ou um remédio, dependendo da forma utilizada. O indivíduo sem orientação fica exposto a um uso inadequado e incorreto do medicamento, levando como conseqüência a efeitos tóxicos ou de hipersensibilidade. Uma reação severa da hipersensibilidade é o choque anafilático, que pode levar o paciente à morte", alerta. A médica Etsuko Onishi, do programa da Saúde da Família em Foz do Iguaçu, também lembra da necessidade de se tomar remédio com orientação médica para evitar efeitos colaterais. "Um remédio pode interagir com outro que a pessoa já esteja tomando". Para citar exemplos, alguns medicamentos podem interferir no efeito de anticoncepcionais ou trazer problemas para mulheres grávidas.
Fonte: Gazeta do Povo